terça-feira, 23 de novembro de 2010

Mais um pouquinho de fenomenologia....

A Fenomenologia de Babel


O filme Babel, dirigido por Alejandro González Iñárritu e escrito por Guillermo Arriaga, é a parte final dos dramas de narrativas múltiplas que ficaram conhecidos como “a trilogia da morte”, iniciada com Amores Perros e 21 Gramas. Babel expõe quatro narrativas compostas por diferentes grupos de personagens e diferentes situações, todas interrelacionadas, onde os eventos não são exibidos em uma seqüência natural, sacrificando a clareza. Enquanto este artifício parece ter funcionado com a crítica, já que o filme recebeu muitos prêmios e elogios, uma boa parte da audiência acredita que falta de clareza não é necessariamente uma qualidade, mas sim um meio de criar o efeito “a nova roupa do rei.”
Segundo Edmund Husserl, a fenomenologia é “o estudo reflexivo da essência da consciência da forma que esta é experienciada de uma perspectiva de primeira pessoa.” E foi justamente conversando com meus colegas que fiz algumas das conexões mais interessantes entre as situações exibidas no filme e essa vertente da fenomenologia. Uma colega me relatou algo assim: “Não, vê só, no começo do filme o homem dá uma arma para as crianças, dois guris deste tamanho , uma coisa horrível!” Outro colega me disse que o problema era “a japonesa tarada, porque o pai dela não dava atenção nem para ela e nem para a mãe dela.” Até então eu não havia assistido ao filme, mas guardei esses comentários para ver se concordaria ou não com eles.
Assistido ao filme, notei que o homem que dá uma arma para as crianças é um criador de cabras do Marrocos, e que as crianças são seus filhos. É realmente uma coisa horrível ver um pai entregando uma arma carregada para seus filhos, especialmente para nós, que crescemos em zonas urbanizadas. Mas na área rural, seja no Marrocos ou no Brasil, não é incomum que crianças trabalhem na criação de animais e que saibam manejar armas para proteger a criação dos predadores. Estaria minha colega equivocada no seu comentário? Não, a conseqüência do manejo da arma pelas crianças mostra que, eliminando aquilo que é adicionado ao fato – ou fenômeno – observado, o resultado é horror. Contudo, conhecendo um pouco melhor o ocorrido, desenvolve-se uma compreensão mais ampla sobre aquela situação em particular: a realidade de que crianças de áreas rurais aprendem, de uma forma não muito segura, a usar armas desde muito cedo. No modelo de produção rural familiar, os pais contam com os filhos para ajudar nas tarefas diárias, não como uma forma de explorar o trabalho dessas crianças – elas estão trabalhando para aquilo que lhes será deixado de herança – mas como uma maneira de passar adiante as ferramentas ou o conhecimento necessário para poder manter a herança deixada pelos pais. Seria o caso de condenar o modelo de produção rural familiar ou seria o caso de lidar com o problema em si? Talvez a ONU, ou alguma outra organização internacional, devesse imprimir uma cartilha com algumas regras de segurança para o manejo de armas, tais como: nunca, jamais, em hipótese alguma, apontar a arma para uma pessoa ou para uma habitação onde possam haver pessoas ou para um veículo que possa estar transportando pessoas; e distribuir tal cartilha entre as famílias que vivem dessa maneira em áreas com comércio irregular de armas de grande calibre. Com certeza os pais iriam passar a informação aos filhos, da mesma forma que ensinaram seus filhos a guiar o rebanho e outras funções da vida rural.
Também notei que a japonesa realmente tinha problemas de fundo emocional para lidar com pessoas do sexo masculino, e que o pai da japonesa realmente não era uma pessoa muito dedicada à filha. A observação do meu colega, embora não ficasse completamente clara no filme sendo, portanto, baseada em suposições, não estava completamente errada. Mas seria justo eliminar dessa equação os milhares de anos de história da construção da cultura japonesa? Anos estes que culminaram no surgimento de uma sociedade que, mesmo pelos padrões modernos, possui costumes que ainda são difíceis de aceitar dentro de uma visão ocidental. Uma vez que nós ocidentais reconhecemos o problema crescente de individualismo como modo de vida, pregado pela visão capitalista dominante, os japoneses possuem um individualismo sexista já enraizado em sua cultura e que apenas se fortaleceu com a queda do império e modernização dos modos de produção após o final da Segunda Guerra Mundial. Como exemplo dos extremos comuns aos japoneses podemos citar: a pressão e cobrança por sucesso pessoal; a manutenção da honra familiar que normalmente recai sobre os ombros dos filhos homens e está relacionada ao sucesso pessoal e enraizada até mesmo na religião professada pela maioria dos japoneses; o papel da mulher na sociedade japonesa, onde as mulheres ainda são sujeitas até mesmo a abusos sexuais nos metrôs como forma de uma manifestação da cultura oriental em si, embora admitidamente errada no contexto da atualidade. Seria justo esperar que naquela sociedade um pai agisse de maneira diferente da maneira que agiu o Sr. Wataya em relação às mulheres de sua família? É muito fácil julgar quando temos o sangue latino – indiscutivelmente passional – correndo pelas veias.
O filme, por se passar em locações e realidades tão diversas quanto os Estados Unidos, o Marrocos e o Japão, cruza diversas fronteiras culturais em que julgamentos devem ser feitos com extremo cuidado para não basearem-se no etnocentrismo ou em um viés cultural (cultural bias). Se, por um lado, na raiz da fenomenologia está a experiência imediata como descrita por Wundt, Husserl pega emprestado o conceito de intencionalidade de Betrano para que, livre de pré-conceitos o observador possa usar o discernimento ao avaliar um fenômeno. Foi justamente a falta do discernimento uma das críticas mais duras à introspecção, que levou a necessidade do desenvolvimento de novas vertentes e do desenvolvimento da própria Psicologia que temos o imenso prazer de estudar agora. Em um mundo perfeito, contaríamos com profissionais que fossem treinados para desprezar seus preconceitos e fossem detentores de discernimento suficiente para avaliar caso a caso o passado (background) de seus clientes. Infelizmente muitos ainda preferem pegar o atalho mais fácil e utilizar lentes culturais que enquadrem as realidades apresentadas – ou ainda por apresentar – em sua própria subjetividade. Desta maneira, jamais desenvolvem empatia alguma com seus clientes e jamais entram em contato com a realidade vivenciada por eles.
Eu gostaria de ter um conhecimento mais aprofundado da Gestalt Terapia de Perls para poder encaixar melhor a subjetividade vivenciada por ele no desenvolvimento de suas teorias à fenomenologia da maneira que se deixa transparecer no filme, mas estamos apenas nas primeiras aulas sobre esse teórico que já exerce certo fascínio. Para mim seria mais fácil relacionar com Sigmund Freud, que embora tenha vivido em um local e uma época extremamente etnocentrista, foi capaz de pensar fora-da-caixa e propor que o terapeuta se deixasse absorver pela subjetividade do paciente (ou cliente) pelo método de associação livre – pegando uma carona naquele trem e sentando na janela para observar a paisagem. Para nós, contemporâneos da Era Digital, é valido ressaltar que não é possível fazer isso sem conhecer a cultura e o passado do paciente, coisa especialmente complexa em um mundo globalizado onde as culturas se entrelaçam pela hiper-conectividade.
Ainda que tenhamos dificuldade para assimilar nossas diferenças culturais e pessoais, para melhor compreender as pessoas com as quais deveríamos nos encontrar no exercício da Psicologia, é no mínimo uma obrigação a utilização das ferramentas que nos são entregues por pessoas que foram capazes de ver muito além daquilo que vemos, tais como os teóricos/filósofos da Fenomenologia, para que tentemos alcançar essa sintonia e compreensão. Sem enganos, a vida é dura para as mulheres no Japão, assim como é dura para as crianças em áreas rurais do Marrocos, e até mesmo para o casal americano que tenta resolver suas crises conjugais em uma viagem exótica; é papel do psicólogo endurecer ainda mais essas vidas humanas? Eu acredito que não. Antes devemos entrar em contato com as diferentes realidades para depois tentar ser uma luz guia em direção à “arte do bem viver”. Caso contrário, podemos nos tornar iguais àqueles agentes da imigração do filme, impassíveis diante de qualquer argumentação, meras máquinas de reproduzir comandos e executar ordens. A sociedade já está repleta desse tipo de atitude, e consegue com isso provocar essa verdadeira epidemia de pessoas que não conseguem encarar a vida da maneira que é apresentada, recorrendo a diversas fugas por medo de uma coisa tão simples quanto olhar a si mesmo no espelho da consciência.

Baseado em um trabalho para a disciplina de Fenomenologia.

Resuminho de Sociologia



 
 
Obs: Não é sobre o nosso livro.
Retirado de:

Fenomenologia

Refere-se sempre a alguma
coisa diferente dela mesma."

Qualia, um termo estranho para algo que não poderia ser mais familiar para cada um de nós: a maneira como vemos as coisas. Considerando conscientemente nossa própria consciência estamos submetendo a mesma aos "seus" próprios qualia?

Imagem retirada do blog:

Síndrome de Locked-In


No conto Thérèse Raquin, de Émile Zola, é feito um relato de uma senhora chamada de Madame Raquin que, após um segundo derrame sofrido em decorrência da morte de sua filha, Camille, torna-se gradualmente tomada por uma paralisia incapacitante que evolui para a síndrome de Locked-In. Durante a evolução de sua debilidade ela é pajeada pelos assassinos de seu filho, Laurente e Thérèse. No texto do autor francês, é feita uma detalhada descrição da degenerescência da ligação da personagem com o seu corpo e o mundo, assim como as emoções e situações relacionais com os personagens que a cercam.
A síndrome de Locked-in faz com que os pacientes permaneçam cientes e despertos, mas incapazes de se mover ou de se comunicar dada a paralisia que praticamente todos os músculos voluntários do corpo. Esta condição é resultado de uma lesão no tronco cerebral na qual a parte ventral da ponte é danificada. A síndrome de Locked-in é descrita como "a coisa mais próxima de ser enterrado vivo". As pessoas que sofrem da síndrome de Locked-in podem ser capazes de comunicar-se utilizando movimentos oculares, piscando e movendo os olhos, pois geralmente tais movimentos são preservados.
Imagem da Wikipedia - Jean Dominique BaubyNa vida real, um caso notável que tornou-se conhecido pelo público, foi o do jornalista parisiense Jean-Dominique Bauby, editor da revista Elle. Em dezembro de 1995 ele sofreu um derrame, aos 43 anos de idade e, quando acordou 20 dias depois, encontrou-se completamente incapaz de comunicar-se a não ser por meio de movimentos com o olho esquerdo.
Ainda que nesta situação horrível, Bauby encontrou forças e foi estruturado o suficiente para lidar com a situação, chegando a escrever um livro relatando suas memórias de sua vida pregressa e sobre sua vida como um "bernardo-eremita isolado em sua concha". Foi necessária uma enorme persistência para ditar o livro, piscadela por piscadela, mas é tocante a humanidade de suas palavras. Ao narrar sua rotina, ele descreve momentos de felicidade ou mesmo de um certo prazer, como que em uma busca pela aceitação de sua situação, da mesma forma que os mesmos procedimentos, no dia seguinte, lhe são motivo de profunda tristeza.
O título de seu livro é Le Scaphandre et le Papillon (O Escafandro e a Borboleta), onde o escafandro é seu corpo, mergulhado na imobilidade, e a borboleta é sua imaginação. E, parafraseando Mallon, que escreveu sobre o livro para o NY Times: "insuportável é uma palavra que se torna difícil de ser usada, depois que lêmos este livro."


Referências:
HAWKES, C. H. "Locked-in" Syndrome: Report of Seven Cases. no bmj.com (texto curto mas bastante informativo).
In the blinking of an eye (No piscar de um olho), artigo do NY Times por Thomas Mallon sobre Jean-Dominique Bauby.
Locked-in syndrome, na Wikipedia.
Texto integral de Thérèse Raquin, de Émile Zola, no Projeto Gutenberg.

Sensação e Percepção - Paladar, Olfato e demais sentidos


Aviso: Este resumo de nada serve sem o acompanhamento das aulas e o estudo do conteúdo dos livros. A finalidade deste resumo é servir como ferramenta de memorização e fácil acesso às informações já conhecidas e compreendidas no contexto de aula.Paladar:
É um sentido químico, que é útil de duas formas: para que reforce nosso comportamento alimentar, fazendo com que procuremos certos nutrientes, e para que possamos reconhecer substâncias nocivas para a nossa saúde que estejam presentes na alimentação ou em outras coisas que passem pelo nosso trato gustativo. Nossa língua conta com papilas gustativas, onde encontram-se duzentos ou mais brotos gustativos, cada um contendo um pólo capaz de detectar elementos químicos que se traduzem nas sensações de doce, salgado, amargo e azedo. Os detectores especializados de localização conhecida, até o momento, são aqueles capazes de detectar as sensações amargas, doces e o "umami" - os receptores especializados em perceber o "umami" são os responsáveis pela detecção de certos aminoácidos, tais como o glutamato monossódico, daí a sensação de um sabor mais rico em alimentos tratados com essa substância (o consumo excessivo de glutamato monossódico pode causar danos à saúde).
Nossa resposta aos sabores é geneticamente determinada, e o gosto pelo consumo de açúcar, que juntamente à outros fatores vem criando problemas de obesidade em países desenvolvidos, é uma herança da dificuldade que nossos ancestrais tinham de encontrar alimentos ricos em glucose no passado remoto da humanidade. Alimentos ricos em nutrientes mais comuns, tais como as gorduras, não excitam tanto os receptores de sabor quanto alimentos ricos em nutrientes mais difíceis de encontrar na natureza; assim como alimentos estragados, que logo despertam a repulsa.
A interação sensorial se dá com a participação do sentido do olfato no sentido do paladar. Sem o olfato teremos dificuldades para distinguir os sabores. Neste sentido, os sabores são formados pelo odor (olfato), pela gustação (paladar) e pela textura (tato, também presente na língua) daquilo que ingerimos.

Olfato:
Os cheiros que sentimos são, para nosso desgosto em certas situações, moléculas daquilo que estamos sentindo o cheiro. Assim como o paladar, o olfato é um sentido químico e que nos ajuda a reconhecer alimentos, substâncias nocivas e, se desconsiderarmos a existência do NC0 (nervo craniano zero), ou se considerarmos ele parte integrante do sistema olfatório, também possui papel fundamental no nosso comportamento reprodutivo, na detecção de feromônios que, segundo uma hipótese, são chave para que saibamos instintivamente a compatibilidade genética e a saúde sexual dos pares. Como visto anteriormente, o olfato desempenha papel essencial para que possamos saborear os alimentos, de maneira que ele também é importante no mecanismo de recompensa que faz com que nos alimentemos.
No desenvolvimento humano, o olfato é responsável pela captação de hormônios secretados pelos bebês que estimulam a produção de leite nas mães e que diminuem a produção de testosterona nos pais, deixando os machos mais calmos para desempenhar suas funções paternas. Por sua vez os bebês reconhecem o cheiro dos pais, em especial o cheiro do leite materno, sendo capazes de distinguir o leite de sua mãe do leite de outras mães (a amamentação trás enormes benefícios tanto físicos quanto emocionais para a mãe e para o bebê).
Diferentemente das células fotorreceptoras da retina, que são especializadas em detectar luzes e cores e que, em junção, detectam formas e contrastes, sendo, portanto, apenas de dois tipos diferentes, as células responsáveis pelo olfato são bastante variadas, especializadas em reconhecer as moléculas de diferentes tamanhos e composições que trazem as informações olfativas.
Dentre as partes ativadas no cérebro para que possamos sentir os cheiros, estão o bulbo olfativo, o córtex olfativo, no lobo temporal, e partes do sistema límbico envolvidas na emoção e nas memórias - daí o motivo pelo qual alguns cheiros são capazes de despertar memórias remotas.

Propriocepção, Equilíbrio e Cinestesia:
Considerada como sendo o "verdadeiro" sexto sentido, a propriocepção é o sentido que nos permite saber a posição relativa do nosso corpo no espaço, a localização dos nossos membros em relação ao nosso corpo e o momentum da aceleração do nosso corpo e membros.
Enquanto o sentido de movimento inferido pelos pêlos que recobrem nosso corpo (tato) pode indicar tanto que estamos em movimento (como quando sentimos o atrito do ar em nossos pêlos quando andamos de bicicleta), quanto que estamos estáticos e o ar está se movendo à nossa volta (vento) e, enquanto que o sentido de equilíbrio destina-se apenas à balancear o nosso corpo para que possamos nos mover de forma harmoniosa, a propriocepção interage com estes dois sentidos mas vai além, permitindo que consigamos alcançar objetos com os braços, em alguns casos até mesmo sem o feedback visual, e movimentarmos nossos membros de forma coerente em relação ao nosso corpo e aos objetos que o cercam.
Uma pessoa que perdesse totalmente o sentido do tato ficaria apenas com uma deficiência na propriocepção, da mesma forma que uma pessoa que sofresse algum dano no sentido vestibular (ou de equilíbrio) perderia completamente o balanço, mas ficaria apenas com uma deficiência na propriocepção.
A propriocepção é usada como sinônimo de cinestesia por alguns autores, porém outros utilizam a cinestesia para dar ênfase ao sentido de movimento, excluindo o sentido de balanço. Neste caso, alguém que sofresse um dano no sentido vestibular teria uma degradação do sentido de propriocepção mas nenhuma degradação no sentido de cinestesia.
Fisiologicamente é preciso saber que a propriocepção consciente se dá pela via dorsal leminisco medial para o cerebelo, e que a propriocepção inconsciente se dá pelo trato dorsal espinocerebelar, ou seja, que são duas vias, uma consciente e outra inconsciente, que são principais para o sentido de propriocepção; mas o sentido é, na verdade, informação composta dos neurônios localizados no ouvido interno, nos neurônios que dão a sensação de contração e distensão muscular e movimentos das juntas, e a cinestesia é informação composta dos neurônios do ouvido interno e daqueles responsáveis pelo sentido de tato .


Fontes:
Myers, Psicologia; Davidoff, Introdução à Psicologia.
eMedicine.com from WebMD.
O Segredos dos Sentidos. Revista Mente & Cérebro edição especial n. 12. Ediouro : São Paulo.
Sensory system. Wikipedia.

Tato e Dor

Sensação e Percepção - Tato e Dor


Aviso: Este resumo de nada serve sem o acompanhamento das aulas e o estudo do conteúdo dos livros. A finalidade deste resumo é servir como ferramenta de memorização e fácil acesso às informações já conhecidas e compreendidas no contexto de aula.

Tato:

Enquanto animais sociais, consideramos a visão e a audição dois dos nossos principais sentidos, pois são parte essencial da comunicação verbal, permitindo que ouçamos o que nos é dito e que observemos o feedback gestual e expressão facial das pessoas com quem falamos. Contudo, o sentido do tato também desempenha um papel vital quando interagimos com outras pessoas: quanta informação se pode inferir a partir de um aperto de mãos em uma reunião de negócios?, qual o valor do abraço de um amigo num momento difícil?, qual a importância do contato físico com os pais para o desenvolvimento saudável de uma criança? Todos nós temos alguma idéia das respostas para estas perguntas, pois nos beneficiamos da interface permitida pelo tato diariamente.
Além de suas importantes funções sociais, o tato é possui grande valor para a nossa sobrevivência, uma vez que ele engloba diversos outros sentidos, tais como a pressão exercida sobre a superfície da pele, o calor e o frio, três sentidos que quando expostos à extremos podem se traduzir em dor que nos avisam sobre possíveis danos iminentes aos tecidos; e não apenas estes, mas também a percepção da movimentação do ar a nossa volta pode ser percebida pelos pêlos que recobrem a pele. Da mesma forma, tato pode nos informar sobre a viscosidade de líquidos, do óleo à água, da textura das superfícies que tocamos e nos trazer alguma informação química que se traduz em dor, no caso da pele exposta à amônia ou à águarras.

Dor:
A dor, ou o sentido da nocicepção, é indispensável para a manutenção da nossa saúde e da integridade dos nossos tecidos. É a ausência da dor, por exemplo, que causa os ferimentos tão característicos ao mal de Hansen, também conhecido como lepra (o Brasil permanece entre as áreas globais onde há maior incidência de lepra, perdendo apenas para alguns dos países mais pobres do continente Africano). Pessoas com insensibilidade congênita à dor também estão sujeitas a sofrerem ferimentos terríveis e incapacitantes pode desconhecerem ou ignorarem os limites do próprio corpo, de maneira que crianças que sofrem dessa alteração costumam apresentar repetidas fraturas em vários ossos, em especial os ossos das pernas e dos braços.
A dor, por mais que doa, é essencial para a sobrevivência.
A sensação de dor não depende exclusivamente do nervos receptores espalhados pelo nosso corpo, mas também, em grande parte, do nosso cérebro. A comprovação disso aparece na forma dos membros fantasmas, membros que foram amputados mas que continuam sendo percebidos pelo cérebro e causam imensa dor nos pacientes. Dois expoentes mundias da pesquisa de membros fantasmas são Oliver Sacks e V. S. Ramachandran.
Teoria portão: a medula espinhal contém um "portão" neurológico que pode tanto transmitir a dor por meio da ativação de fibras finas quanto podem bloquear a sensação de dor por meio da ativação e estimulação das fibras grossas, que transmitem outros sinais.
A percepção da dor é subjetiva e individual, podendo uma dor de origem externa ser aliviada ou potencializada pela percepção do sujeito ou seu estado emocional e, inclusive, crenças, valores e contexto social. Desta maneira, além da anestesia, acupuntura, estimulação elétrica, cirurgia, exercícios e relaxamento, o controle da dor também pode ser realizado voltando a atenção do sujeito para outras coisas.

Obs.: a dor é um bom exemplo tanto de processamento do tipo ascendente quanto de processamento do tipo descendente.

Fontes:
Myers, Psicologia; Davidoff, Introdução à Psicologia.